A Companhia de Habitação Popular de Curitiba, a Cohab, colocou à venda quatro terrenos que somam um preço mínimo de R$ 6,45 milhões. Um deles, no Guaíra, tem 2.276 metros quadrados e está numa zona em que o próprio plano de zoneamento lista empreendimento inclusivo de habitação de interesse social entre os usos permitidos. Os dois editais de concorrência pública foram assinados pelo diretor-presidente da companhia, André Baú, e publicados no Diário Oficial do Município desta segunda-feira (14).

As consultas de lote obtidas pelo Plural junto à Secretaria Municipal do Urbanismo mostram onde ficam os imóveis, quanto medem e o que se pode construir neles. Os quatro aparecem no cadastro municipal com utilização registrada como Cohab e sem área construída.

Três lotes no eixo dos prédios altos

A Concorrência 4/2026 reúne três lotes contíguos na Rua Deputado Heitor Alencar Furtado, no Campina do Siqueira, vendidos em conjunto por no mínimo R$ 3 milhões. São os números 560, 550 e 536, este último em esquina com a Rua Paulo Ziliotto. Os dois primeiros têm 221 metros quadrados cada, e o de esquina, 273. Ao todo, 715 metros quadrados, o que dá R$ 4.196 por metro quadrado no preço mínimo. A sessão está marcada para 4 de novembro.

O que explica esse valor é o zoneamento. Os três estão em Eixo Nova Curitiba, com testada para via central, faixa em que a altura das edificações é livre para habitação coletiva e o coeficiente de aproveitamento básico é 2, podendo chegar a 3 em prédios de uso misto que reservem parte da área para comércio e serviços. É terreno de torre.

Os três lotes constam do cadastro municipal com bloqueio por imóvel público desde janeiro de 2002 e pertencem à planta de loteamento Pedro Bernardino Zillioto II, cujo protocolo é de 2009.

No lote de esquina consta um alvará antigo de construção, referente a uma obra de 81,12 metros quadrados dada como concluída. Hoje não há nada construído ali: tanto o cadastro de finanças quanto os editais registram os quatro imóveis como terrenos vazios, sem benfeitorias.

Um terreno maior no Guaíra

A Concorrência 5/2026 trata de um único imóvel, na Rua Daisy Luci Berno, número 2.265, no Guaíra, com preço mínimo de R$ 3,45 milhões e sessão em 5 de novembro. É o maior dos quatro, com 2.276,38 metros quadrados, mas o preço por metro quadrado é bem menor: R$ 1.516, menos de um terço do valor pedido pelos lotes do Campina do Siqueira.

A diferença também está no zoneamento. O terreno fica em Eixo Conector Leste 3, onde a altura básica é de quatro pavimentos e o coeficiente de aproveitamento é 1,5. O lote precisa respeitar uma faixa não edificável de drenagem de quatro metros, dois de cada lado do eixo, e a consulta orienta procurar a Secretaria de Obras Públicas para a execução do projeto.

Entre os usos habitacionais permitidos nessa zona está, textualmente, o empreendimento inclusivo de habitação de interesse social, ao lado de habitação coletiva, unifamiliar, institucional e transitória. Ou seja, a companhia criada para produzir moradia popular vende um terreno de mais de dois mil metros quadrados onde a legislação urbanística admite justamente esse uso.

Para que vai o dinheiro

Os dois editais trazem a mesma frase sobre o destino dos recursos: o valor arrecadado com a alienação terá por escopo sustentar a continuidade das ações administrativas voltadas à execução da política habitacional de interesse social do município.

A formulação merece atenção. O dinheiro não está vinculado à construção de moradia nem à compra de outros terrenos para habitação popular, e sim à sustentação das ações administrativas da política habitacional. Na prática, uma empresa pública de habitação popular vende patrimônio imobiliário para custear o próprio funcionamento.

A Cohab foi criada em 1965, pela Lei Municipal 2.545, como sociedade de economia mista. Cabe a ela executar a política de habitação de interesse social da cidade. Os editais seguem a Lei 13.303/2016, que rege as empresas estatais, e o regulamento interno de licitações da própria companhia. O critério é o de maior oferta.