O navio-hospital italiano, chamado Po, afundou na costa da Albânia em 1941, durante a Segunda Guerra Mundial, após ser atingido por um torpedo britânico. Mais de oito décadas após o naufrágio, a estrutura de 135 metros repousa a cerca de 35 metros de profundidade e transformou-se em um próspero recife artificial.

O navio-hospital italiano afundado na Segunda Guerra Mundial transformou-se em um próspero recife artificial no Mediterrâneo. Foto: Mauro Pazzi

Um levantamento científico inédito, realizado entre 2022 e 2024, revelou que o casco da embarcação abriga atualmente 151 espécies marinhas na Área Marinha Protegida de Karaburun-Sazan. A pesquisa, publicada na revista Frontiers in Ocean Sustainability, comprova que o navio funciona como berçário, área de reprodução e abrigo ecológico no fundo do mar.

Entre os achados mais relevantes está o registro de uma foca-monge-do-mediterrâneo, espécie criticamente ameaçada de extinção que não era vista na região há quase 30 anos. No entanto, os cientistas alertam que o local também começou a atrair espécies invasoras, como o peixe-fogo-diabo, impulsionadas pelo aquecimento das águas.

Como ocorreu o naufrágio do navio-hospital Po na Segunda Guerra?

O ataque aconteceu na noite de 14 de março de 1941. A embarcação evacuava soldados italianos feridos na Baía de Vlora quando sofreu o impacto de um torpedo de um bombardeiro britânico Swordfish.

O navio começou a submergir rapidamente e afundou em cerca de dez minutos. O acidente resultou na morte de 23 das 240 pessoas a bordo, incluindo três integrantes da Cruz Vermelha italiana. Entre os sobreviventes estava Edda Ciano, filha do ditador Benito Mussolini.

Mergulhador explora a proa incrustada de vida marinha do navio-hospital Po afundado na Albânia.
A imponente proa do navio-hospital Po repousa a 35 metros de profundidade, coberta por organismos marinhos que transformaram a estrutura em um recife artificial. Foto: Mauro Pazzi

As normas do direito humanitário internacional exigiam que navios-hospital fossem pintados de branco com cruzes vermelhas e iluminados à noite. No entanto, o Po navegava com as luzes apagadas para evitar chamar a atenção para outras embarcações ancoradas na baía.

Hoje, os destroços repousam sobre uma plataforma inclinada a menos de 1,6 km da costa, integrando a Área Marinha Protegida de Karaburun-Sazan.

Qual é o estado de conservação da embarcação submersa?

Mesmo após oito décadas submerso, o Po apresenta um estado de conservação surpreendente. Mergulhadores relatam que azulejos de cerâmica ainda cobrem as paredes dos banheiros. Além disso, ventiladores continuam pendurados nos tetos e mesas de teca permanecem perfeitamente alinhadas no convés de comando.

Para avaliar a integração do navio com o ecossistema sem danificar a estrutura, cientistas realizaram 32 mergulhos técnicos entre 2022 e 2024. A equipe combinou levantamentos por sonar de alta resolução com técnicas de fotografia 3D. Esse trabalho permitiu mapear detalhadamente a vida subaquática fixada ao metal.

Como o naufrágio do navio-hospital se transformou em recife artificial?

As chapas metálicas da embarcação criaram um solo rígido para a vida marinha. Esse ambiente, portanto, favorece o crescimento e a fixação de diversos organismos. No total, o levantamento identificou 151 espécies no local. Densas camadas de esponjas, ascídias, mexilhões, ostras e algas cobrem a maior parte da estrutura.

Mergulhador ilumina com lanterna uma roda de leme coberta de vida marinha no navio-hospital Po.
A estrutura preservada do navio-hospital abriga hoje mais de 150 espécies marinhas e atrai a atenção de pesquisadores. Foto: Mauro Pazzi

A embarcação abriga peixes como robalos, bodiões e peixes-escorpião, além de aglomerados de ovos de lula presos ao casco. Além disso, os cientistas destacam que a estrutura atua ativamente como:

  • Berçário natural: garante um espaço seguro para o desenvolvimento inicial de peixes costeiros;
  • Zona de reprodução: oferece suporte adequado para a postura e proteção de ovos de cefalópodes;
  • Área de descanso: serve de abrigo temporário para mamíferos marinhos ameaçados.

Por que o reaparecimento da foca-monge-do-mediterrâneo é significativo?

Durante as expedições, os pesquisadores avistaram uma foca-monge-do-mediterrâneo descansando no naufrágio. Esse foi o primeiro registro confirmado da espécie na Baía de Vlora desde 1996. Atualmente, restam entre 444 e 600 indivíduos adultos desse mamífero no mundo, sendo considerada uma espécie ameaçada.

O aumento do turismo em praias abertas e cavernas afastou esses animais de seus habitats originais. Por isso, as focas passaram a procurar novos refúgios isolados. O registro indica que os recifes artificiais ajudam a proteger espécies ameaçadas em áreas com intensa atividade humana.

Quais são as ameaças de espécies invasoras na área?

Apesar de proteger a fauna nativa, o naufrágio atrai organismos exóticos. Sendo assim, os cientistas registraram a presença do peixe-fogo-diabo, nativo das águas quentes do Oceano Índico e do Mar Vermelho. O aquecimento das águas, impulsionado pelas mudanças climáticas, facilita o avanço dessa espécie em direção ao Mar Adriático.

Peixe-fogo-diabo invasor nada ao redor do naufrágio do navio-hospital Po na costa da Albânia.
O peixe-fogo-diabo, uma espécie invasora das águas tropicais, foi avistado pelos pesquisadores nadando perto do casco do navio-hospital Po. Foto: S. Modugno et al., Frontiers in Ocean Sustainability, 2026 sob CC BY 4.0

Estruturas artificiais no fundo do mar podem atuar como habitats de transição para o avanço de espécies exóticas. Assim, para conscientizar o público e incentivar a conservação, a equipe desenvolve um modelo 3D do Po. A iniciativa, portanto, permitirá a exploração virtual da embarcação e promoverá a apreciação da natureza subaquática.